Imagina que um dia ias parar a um lugar de sonho, a um sítio ideal. Tudo é bonito e perfeito, com um toque de mágico; não há conflitos nem confusões, não há contrariedades nem nada porque lutar. Uma vida sem problemas porque está tudo como devia estar, simplesmente bem.
Olha a tua volta. Como são as pessoas que te rodeiam? Como és tu nesse lugar? Qual a tua cara perante este ambiente leve e positivo?
Imagina-te lá!
Como te sentes?
Essas pessoas que vês, essa gente de sorriso posto, caras iluminadas e olhar honesto são os cambodjanos com quem nos cruzamos. A tua cara e o que te imaginas a sentir somos nós, a Tita e a Ana no Cambodja.
Agora tira o cenário que desenhámos, foi só para te fazer sentido.
O Cambodja é um lugar deserto, pobre e com uma história recente de fazer chorar, de remexer as entranhas, puxar aquela sensação que nasce da barriga, sobe pelo corpo todo até à cabeça e explode num combate de pensamentos, ideias e sentimentos. O que aconteceu no Cambodja é daquelas coisas que todos sabemos, mas fingimos achar que é conto, uma história fodida de filmes de cinema. Aqui és obrigado a enfrentar a história com factos e, se quando se ligam as luzes e abandonas a sala, ainda são alguns os minutos em que sentes e vives o filme intensamente, estar aqui, com eles, num cenário que não é de todo fictício, são precisas várias horas de monólogos revoltados e várias doses de autoterapia.
Incrível é que os Cambodjanos são mesmo tudo aquilo que antes descrevemos: Sempre sorridentes, amigáveis e com um olhar inquestionavelmente honesto.
Já não é novidade que em viagem nunca estamos sozinhas. Apresentamos os novos integrantes da família: o Martin e o Tim. A nossa primeira paragem foi em Siem Reap, onde chegámos com a intenção de ficar uns 2 ou 3 dias, mas entre visitas a Angkor Wat e ao tuk-tuk bar a semana passou-se.
Quem é que nunca viu o Thom Rider ou pelo menos jogou na playstation? Ao vivo e mil vezes mais excitante.. Em Ta Prohm o poder e a força da natureza fazem-se sentir. Árvores centenárias atravessam muros e tectos e esmagam-nos só de olharmos para elas. Este sitio tem alma e revela-se através da linguagem entre a arquitetura do templo e as raízes e troncos que já fazem parte dela.
Em Banteay Srei o que salta à vista é pura arte. Os baixos relevos são de um pormenor e beleza delicadíssimos, tanto que conta a lenda que só podem ter sido feitos pelas mãos de uma mulher. Os próprios locais referem-se ao templo como Lady Temple.
O famoso templo de Angkor Wat, símbolo nacional e maior orgulho para todos os Cambodjanos é lindo de meter inveja e chorar os preços dos aviões por estar tão longe de casa.
Perdemos, ou melhor, ganhámos 3 dias em explorações no complexo de Angkor Wat. Uns dias de bicicleta, outros de tuk-tuk, perder-nos aqui é incansável. Se o preço dos bilhetes não fosse de dar dor no cotovelo fazíamos deste lugar tema da nossa tese de mestrado.
O Martin foi para Portugal cavalgando no seu cavalo branco para recuperar a sua amada. Nós os 3 fomos para Batambang andar no bamboo train com um condutor sem dentes a cair de bêbado.
Visitámos a S-21 (escola primaria convertida em prisão) e os killing fields em Phnom Phen. Aqui foi, como vos dissemos, onde mais diretamente nos vimos forcadas a enfrentar o que foram, ou são, os factos de uma dolorosa história passada, que deixou feridas ainda abertas.
Khmer Rouge é o título deste filme de terror e Pol Pot o nome do antagonista. De resto, entre personagens principais e secundárias contam-se pelo menos 1.7 milhões de mortos e incontáveis são os massacrados e torturados.
Perdidas fomos achadas por um local, novo amigo, que nos decidiu adoptar. Levou-nos até aos cantos mais refundidos e só não nos dava o que não tinha.
Certo dia decidimos acompanhá-lo no que seria um dia normal da sua vida quotidiana cumprindo todas as suas funções e responsabilidades. Passámos por duas lojas de telemóveis onde ele foi supervisionar os dois irmãos responsáveis. Para nós, as lojas eram duas pequenas barraquinhas à beira da estrada, para ele são a razão de um profundo orgulho e a esperança de um futuro melhor para toda a família.
Para nossa surpresa insistiu para que fossemos conhecer o pai e a mãe. Neste caso, repetir não é demais. Eles são tão, tão, tão… Gente boa. A sério, apaixonámo-nos pelos Cambodjanos.
A mãe levantou-se da cadeira de plástico onde estava sentada, fez dela mesa, serviu-nos fruta, água e frutos secos e sentou-se no chão. Quando a partilha do momento é sincera nem o idioma é barreira.
Ao final da tarde fomos patinar, que é o auge do divertimento deste povo. De regresso a casa, ele conseguiu-nos surpreender novamente. No dia seguinte mudávamos de cidade, por preocupação e por não termos ninguém a quem recorrer, este nosso amigo que pouco tem queria-nos ofertar um telemóvel caso precisasse-mos de ajuda. Comovidas recusámos (mas não é de apertarmos-lhe as bochechas e dizer ”cutchi-cutchi”?)
Paramos em Kratie para ver os golfinhos Irrawaddy e subimos ate Ratanakiri, saltámos de cascata em cascata e nadamos num lago dentro de uma cratera vulcânica. A caminho do sul tivemos o nosso memorável pequeno-almoco cambodjano.
Recém chegadas a Shianoukville, preparávamo-nos para fazer o check in na guesthouse mais barata quando o dono nos ofereceu trabalho. Trabalhámos dez dias no Utopia, distribuíamos flyers na praia que anunciavam a festa da noite, ajudávamos no bar e basicamente só tínhamos que nos divertir. Em troca tínhamos alojamento, comida e bebida grátis. Bom deal, não acham?
Sempre serviu para poupar uns trocos e melhor que isso, permitiu-nos criar verdadeiras ligações de amizade com o staff que era todo local. Isto foi exatamente na altura do Euro e, por sorte, tínhamos os jogos a dar na pantalha gigante. Quando Portugal jogava metíamos o staff todo com a bandeira na cara e a gritar olé-olé-olé.
Conhecemos os grandiosos viajantes “Teatro do Globo Terrestre” , os “berdadeiros” meninos do nuorte, que estavam na fase final da viagem deles. Decidimos despedirmos em grande e fomos os cinco para o paraíso na terra Koh Rong.




Tudo o que decrevem é simplesmente maravilhoso e deixa-me sem palavras!!
Lindo mesmo!!
Beijinhos
Ao ler-vos consigo imaginar-me a jogar Tomb Raider, onde existem duas maravilhosas personagens/aventureiras principais: a Ana e a Tita que “against all odds” superam todos os obstáculos… e aventura continua!!!
já estava com saudades das vossas crónicas!!! bjs
gracias por sus crónicas……….. sigan adelante!!!!!! mis aventureras Tita y Ana. Saudades muitas e a lot of kisses Mummy